terça-feira, 29 de julho de 2014

Quitéria

Recife tem sido especialmente caótica depois que comecei a atravessar a cidade todos os dias de manhã e, porque deu-se a rotina, hoje foi mais um dia de acordar depois do trigésimo "soneca" do despertador, sair atrasada de casa e resmungar qualquer bobagem sobre os infortúnios da vida. Acontece que hoje, no habitual trânsito estressante que nem o cd de Damien Rice conseguiu tornar mais agradável, um motoqueiro emparelhou comigo. Quando olhei pro lado, no susto, vi em seu braço uma tatuagem bem tosca: o nome "Quitéria" cercado de diversos corações. Apesar do inicial sentimento de vergonha alheia que naturalmente me ocorreu, acabei parando pra refletir sobre essas demonstrações de afeto que a gente tanto espera quando o assunto são as coisas do coração. Entre minhas amigas, a conclusão a respeito de nossas conversas é unânime: estamos sempre esperando um elogio daqui, uma mensagem espontânea dali, qualquer coisa que nos faça sentir lindas e vivas. Por que é tão difícil a gente se bastar? Pra quê depositar tanta expectativa no que podemos despertar no outro? É muito difícil se envolver com alguém e não bater uma pontadinha de angústia quando não se percebe no outro a importância que deveríamos ter. Depois de três anos tendo que lidar com essa constante falta - falta de algo indeterminado e impreciso, mas que deveria ter sido dito, cantado, escrito, gritado, expressado, demonstrado, enfim - e não foi -, começo a valorizar a importância dos pequenos gestos, da beleza que existe nos pequenos detalhes que por vezes negligenciamos por esperar algum tipo específico e grandioso de demonstração. Segredos compartilhados, olhares desconcertados e cervejas divididas a dois também são demonstrações de afeto. Silêncio, às vezes - veja bem, às vezes! -, também é demonstração de afeto. E é importante que os detalhes sejam enxergados e sentidos. Porque muita gente não sabe sequer como se sente, quanto mais como se demonstra o que se sente! Sobretudo, mais importante do que saber fazer a leitura do outro, é saber fazer a leitura de si mesmo. É muito bom receber uma mensagem carinhosa, um beijo roubado, um convite inusitado de encontro, mas a expectativa disso tudo, eu sei, torna as coisas mais pesadas. E é tão mais delicioso quando a gente tira esse peso da expectativa e fica, de fato, leve o suficiente pra se deixar surpreender, não é? É isso. Poder ser surpreendida, deixar que suspiros sejam arrancados, sorrir sem motivo por qualquer besteira. Eu gosto das coisas assim, às claras, gosto de saber exatamente onde estou pisando, de aproveitar o momento sem medo de demonstrar o que sinto e penso, ainda que seja mal interpretada depois. Não tenho mais tempo pra imprecisões, pra pessoas fugidias e relações atribuladas e mal esclarecidas. Não quero ter meu nome riscado pra sempre no corpo de outra pessoa, mas espero, sim, ser a Quitéria de alguém.



Ouvindo: Beck - Everybody's gotta learn sometime (porque um dia a gente aprende, né?)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Por que a gente é desse jeito? Criando conceito pra tudo que restou..


Meu aniversário se aproxima e, com ele, uma série de pensamentos sobre, ehm, mim mesma. Já me disseram que sou egoísta, e respondo que hipócrita é aquele que diz não se colocar na frente da maioria das coisas que acontecem ao seu redor. Então, com uma pontada de amargura e torcendo pra que ele não seja mal interpretado, assumo meu egoísmo. Que mal tem em querermos que as coisas funcionem a nosso favor? A diferença está no modo como cada pessoa se comporta diante desse sentimento e até onde vai para satisfazê-lo. É o que separa quem faz birra por não conseguir o que quer dos que passam por cima de tudo e todos pra alcançar seus objetivos. Nesse aspecto, sou do grupo dos birrentos mesmo. Aliás, fico meio preocupada na hora de atribuir esses adjetivos, essas definições; palavras tão fortes pra classificar quem sou, como me vejo, aonde me encaixo nesse mundo tronxo. É tão complicado isso da gente definir tudo, procurar colocar uma etiqueta em cada pessoa, coisa, em cada acontecimentozinho: incisiva e automaticamente, praticamos diariamente o exercício de organizar, nas mentes, tudo em "pastas" separadas por juízos de valor. Nessa onda, acabamos deixando alguma coisa ou, pior ainda, alguém com uma etiqueta meio equivocada. Então agora, à beira dos vinte e dois, me encontro repensando uma série de rótulos que passei todos esses anos meticulosamente colocando. Será que ainda servem? É tempo de reorganizar essas pessoas, coisas e acontecimentozinhos e checar se eles pertecem a cada uma dessas pastas, ainda. Mais importante, na verdade, é refletir sobre os rótulos que pairam sobre mim mesma, que antes pareciam brilhar como letreiros de neon em cima de minha cabeça e agora andam meio apagados. É tão fácil a gente abrir a boca pra urrar o que acha sobre os outros, dizer que fulano é isso e beltrano aquilo com a maior propriedade do mundo. Difícil mesmo é olhar pra si e buscar respostas puras e sinceras a respeito de você mesmo. Esse é o egoísmo que deveria predominar, o do auto-conhecimento constante. O egoísmo de enxergar a si próprio e saber exatamente o que isso representa pro exterior. Tarefa árdua essa tal de auto-avaliação. Mas alguns rótulos precisam ser desconstruídos para dar lugar a novas características e atitudes. Sobre mim, prefiro apenas manter definições a respeito de coisas mais simples, como o fato de que pronuncio o número "dizoito", ou como só falo ao telefone andando pela casa, converso sozinha em inglês e não consigo contar uma história sem gesticular exageradamente. Coisas como essas a gente mantem. Os outros adjetivos, a gente pensa duas vezes antes de repetir, pra que novas etiquetas e pastas classificatórias surjam. E surpreendam.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Heimweh.

Há um ano atrás, escrevi aqui algo sobre aeroportos, despedidas e a expectativa do novo. Hoje, trezentos e sessenta e oito dias depois e agora do outro lado do oceano, reler esse texto me parece vir muito a calhar. Naquele tempo, não fazia ideia do que me aguardava... Com o atrevimento de citar a mim mesma, copio essas palavras: "Quando sou eu quem está viajando, desperta-se a expectativa do novo, o frio na barriga na hora da decolagem que também revela o embrulho no estômago por estar buscando novas vivências." E aqui estou, na Alemanha, sentindo o tal embrulho no estômago. Buscando o novo, tentando aprender esse idioma tão complicado e algo de meu curso e, de um modo geral, querendo conhecer o mundo, descobrir coisas e me surpreender. Tantas são as razões que me fazem adorar essa viagem de intercâmbio, mas naturalmente bate quandoemvez uma vontade de recorrer àquilo que já é de muito familiar, conhecido, comum, de casa. Hoje, na classe, perguntei a meu professor em um alemão meio atrapalhado se existia uma palavra parecida com saudade, em português, uma palavra que representasse aquela falta que se sente de casa. Heimweh, ele me disse. Taí uma palavra importante de se saber falar em um idioma que não o meu.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Alone in Kyoto

Dia desses o tráfego enlouquecedor e todas aquelas luzes da noite na cidade me trouxeram uma lembrança no mínimo inesperada: as andanças por São Paulo, aquela atmosfera metropolitana, transeuntes constantes, pessoas fazendo as coisas acontecerem. No meio de tanta gente aleatória, surgem as espreitadas pelo rabo do olho. Entreolhares como se fosse possível conhecer um pouco do outro nos breves segundos em que se fitam. Gosto de parar pra imaginar de onde eles vem, pra onde vão, que pensamentos rodeiam aquelas mentes enquanto toca alguma música nos seus fones de ouvido. Que música ouvem? Do que gostam? Completos estranhos, e eu tentando imaginar pelo que estão passando, se aquele cenho franzido seria por preocupação com algum familiar ou estresse no trabalho... É um grande exercício, esse de atribuir características àqueles que mal conhecemos.
A sensação é bastante semelhante quando penso em você. Antes tão perto, agora você é mais um daqueles incontáveis pontinhos em constante movimento na multidão, se afastando mais e mais. Um completo estranho, sobre quem só me resta tentar formular as mais diversas suposições. Imaginar por onde anda, pra onde vai e do que gosta, agora que estamos distantes. Mais distantes do que os dois mil seiscentos e sessenta quilômetros que separam Recife de São Paulo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Só o tempo mesmo ou nem mesmo o tempo?

No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso
Ele não vai poder me esquecer

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
pra ter argumento

Mas fico sem jeito, calado
Ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar


E eu não sei.


'Resposta ao Tempo', cantada por Milton. Motivos mais do que suficientes pra eu lembrar de você, que me fez e agora quer me desfazer.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Presente conciso, passado expansivo

É engraçado como o mundo contemporâneo desenvolveu em nós essa tendência a simplificar a maneira de expressar certas ideias. Abreviações, gírias, resumos: a corrida louca que é viver nos dias de hoje exige respostas mais rápidas, atitudes mais imediatas, concisão nas palavras. Nessa velocidade avassaladora, muita coisa se perde: pensamentos capazes de encher parágrafos e mais parágrafos ficam resumidos à trabalhosa missão de não ultrapassar 140 caracteres. Relendo meu twitter, me deparei com algo que, embora marcante na época, ficou renegado a 21 palavras. Em duas frases curtas tive o descuido de resumir um fato tão cheio de significado - algo que me acompanha desde que me entendo por gente e que definiu muito do que sou.
Então, agora atenta, tenho a necessidade de discorrer em linhas extensas sobre a maneira como o passado exerce influência no agora. De tíquetes de cinema a etiquetas de roupas, sempre tive essa síndrome de esquilo, arquivando tudo que pudesse me arrancar alguma lembrança posteriormente. Guardo até hoje uns pedacinhos de gesso de parede nos quais uma amiga me escreveu recados: a amizade pereceu, mas o registro dela fica lá, preservado. Aquela minha caixa azul com desenho de ursinhos funciona como uma espécie de portal para um tempo já ido. É a máquina do tempo mais simples do mundo, feita apenas de papelão e elástico. Olhar, vezenquando, pros pedaços de gesso, pros bilhetes de cinema, pras cartinhas, chaveiros e fotos 3x4 por muito tempo mantidos é como um teletransporte para uma realidade hoje apenas existente numa parte pequena da minha mente. Pequena porque lembranças desbotam com o tempo, afastam-se do centro da atividade cerebral, mas não perdem sua importância. Nunca. E foi exatamente essa constatação que me atingiu quando encontrei, dentro de um livro antigo da estante enorme aqui de casa, um pedaço de papel já amarelado. Poucas palavras escritas numa letra inconfundível e tantas coisas do passado guardadas entre as folhas de 'On the Road'. Páginas que fizeram aflorar sentimentos muito além dos provocados pela deliciosa leitura.
"As plantas estão sêcas.", dizia o bilhete, datado de 1981 e ainda numa gramática hoje obsoleta. Eu sequer existia nesse mundo, e consigo extrair, agora, muito significado dessas quatro palavrinhas. A surpresa de encontrar uma frase tão crua foi capaz de despertar uma infinidade de pensamentos, aguçar a imaginação e, por fim, me fazer conformar sobre uma série de acontecimentos. Pra quê tanto desgaste? As plantas simplesmente secaram. Não há muito o que se fazer, além de guardar em bilhetes e pedaços de fitas e bugigangas as memórias de um passado outrora tão importante. Secas, mas boas.

domingo, 24 de outubro de 2010

Encontros e Despedidas

Até pra dar uma amenizada nas temáticas sentimentalóides que andavam rolando por aqui, resolvi falar sobre uma coisa, ou melhor, sobre um lugar que talvez seja um dos meus favoritos: o aeroporto. Não sei explicar racionalmente o porquê desse refúgio, mas aeroportos de uma maneira geral muito me dizem. Quando sou eu quem está viajando, desperta-se a expectativa do novo, o frio na barriga na hora da decolagem que também revela o embrulho no estômago por estar buscando novas vivências. São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e é a mesma sensação toda santa vez: o congelamento dentro do corpo, a excitação pelo que estava/está por vir.
De todo modo, o simples fato de ir ao aeroporto sem passagens compradas ou bagagem a tiracolo me dá uma inexplicável paz de espírito. Ainda que carregada da tristeza por deixar alguém querido ir embora, a situação toda, o abraço derradeiro na frente do portão de embarque é capaz de revelar muito sobre sentimentos verdadeiros. Nos poucos minutos que antecedem a última chamada para embarque imediato, devemos agir rapidamente e deixar apenas as palavras importantes chegarem a seu destino: nesse momento, diz-se somente o essencial, o "te cuida, boa viagem, sentirei saudades" que comprova a importância daquela pessoa na nossa vida e o buraco instaurado enquanto ela está ausente.
Muito mais numerosas do que os bilhetes comprados em meu nome são as lembranças que guardo de momentos assim, nos quais fica atestada a representatividade exata das pessoas que deixo, não para saírem de minha vida, mas para encontrarem outros modos de se fazerem presentes. Distância está bem longe de ser determinada por fatores geográficos, disso sei bem.
Que as despedidas tragam lágrimas, sim. E que sirvam, antes de mais nada, para nutrir a expectativa do reencontro. O buraco outrora fincado no peito é instantaneamente curado, em um preenchimento ainda mais realizador. Mal posso esperar pela próxima oportunidade de ouvir aquele "Flight number zeroeightfiveseven from..." dito no inglês mais amador e ao mesmo tempo confortante ever!