Recife tem sido especialmente caótica depois que comecei a atravessar a cidade todos os dias de manhã e, porque deu-se a rotina, hoje foi mais um dia de acordar depois do trigésimo "soneca" do despertador, sair atrasada de casa e resmungar qualquer bobagem sobre os infortúnios da vida. Acontece que hoje, no habitual trânsito estressante que nem o cd de Damien Rice conseguiu tornar mais agradável, um motoqueiro emparelhou comigo. Quando olhei pro lado, no susto, vi em seu braço uma tatuagem bem tosca: o nome "Quitéria" cercado de diversos corações. Apesar do inicial sentimento de vergonha alheia que naturalmente me ocorreu, acabei parando pra refletir sobre essas demonstrações de afeto que a gente tanto espera quando o assunto são as coisas do coração. Entre minhas amigas, a conclusão a respeito de nossas conversas é unânime: estamos sempre esperando um elogio daqui, uma mensagem espontânea dali, qualquer coisa que nos faça sentir lindas e vivas. Por que é tão difícil a gente se bastar? Pra quê depositar tanta expectativa no que podemos despertar no outro? É muito difícil se envolver com alguém e não bater uma pontadinha de angústia quando não se percebe no outro a importância que deveríamos ter. Depois de três anos tendo que lidar com essa constante falta - falta de algo indeterminado e impreciso, mas que deveria ter sido dito, cantado, escrito, gritado, expressado, demonstrado, enfim - e não foi -, começo a valorizar a importância dos pequenos gestos, da beleza que existe nos pequenos detalhes que por vezes negligenciamos por esperar algum tipo específico e grandioso de demonstração. Segredos compartilhados, olhares desconcertados e cervejas divididas a dois também são demonstrações de afeto. Silêncio, às vezes - veja bem, às vezes! -, também é demonstração de afeto. E é importante que os detalhes sejam enxergados e sentidos. Porque muita gente não sabe sequer como se sente, quanto mais como se demonstra o que se sente! Sobretudo, mais importante do que saber fazer a leitura do outro, é saber fazer a leitura de si mesmo. É muito bom receber uma mensagem carinhosa, um beijo roubado, um convite inusitado de encontro, mas a expectativa disso tudo, eu sei, torna as coisas mais pesadas. E é tão mais delicioso quando a gente tira esse peso da expectativa e fica, de fato, leve o suficiente pra se deixar surpreender, não é? É isso. Poder ser surpreendida, deixar que suspiros sejam arrancados, sorrir sem motivo por qualquer besteira. Eu gosto das coisas assim, às claras, gosto de saber exatamente onde estou pisando, de aproveitar o momento sem medo de demonstrar o que sinto e penso, ainda que seja mal interpretada depois. Não tenho mais tempo pra imprecisões, pra pessoas fugidias e relações atribuladas e mal esclarecidas. Não quero ter meu nome riscado pra sempre no corpo de outra pessoa, mas espero, sim, ser a Quitéria de alguém.
Ouvindo: Beck - Everybody's gotta learn sometime (porque um dia a gente aprende, né?)