domingo, 24 de outubro de 2010

Encontros e Despedidas

Até pra dar uma amenizada nas temáticas sentimentalóides que andavam rolando por aqui, resolvi falar sobre uma coisa, ou melhor, sobre um lugar que talvez seja um dos meus favoritos: o aeroporto. Não sei explicar racionalmente o porquê desse refúgio, mas aeroportos de uma maneira geral muito me dizem. Quando sou eu quem está viajando, desperta-se a expectativa do novo, o frio na barriga na hora da decolagem que também revela o embrulho no estômago por estar buscando novas vivências. São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e é a mesma sensação toda santa vez: o congelamento dentro do corpo, a excitação pelo que estava/está por vir.
De todo modo, o simples fato de ir ao aeroporto sem passagens compradas ou bagagem a tiracolo me dá uma inexplicável paz de espírito. Ainda que carregada da tristeza por deixar alguém querido ir embora, a situação toda, o abraço derradeiro na frente do portão de embarque é capaz de revelar muito sobre sentimentos verdadeiros. Nos poucos minutos que antecedem a última chamada para embarque imediato, devemos agir rapidamente e deixar apenas as palavras importantes chegarem a seu destino: nesse momento, diz-se somente o essencial, o "te cuida, boa viagem, sentirei saudades" que comprova a importância daquela pessoa na nossa vida e o buraco instaurado enquanto ela está ausente.
Muito mais numerosas do que os bilhetes comprados em meu nome são as lembranças que guardo de momentos assim, nos quais fica atestada a representatividade exata das pessoas que deixo, não para saírem de minha vida, mas para encontrarem outros modos de se fazerem presentes. Distância está bem longe de ser determinada por fatores geográficos, disso sei bem.
Que as despedidas tragam lágrimas, sim. E que sirvam, antes de mais nada, para nutrir a expectativa do reencontro. O buraco outrora fincado no peito é instantaneamente curado, em um preenchimento ainda mais realizador. Mal posso esperar pela próxima oportunidade de ouvir aquele "Flight number zeroeightfiveseven from..." dito no inglês mais amador e ao mesmo tempo confortante ever!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dificilmente se arranca a lembrança.

É engraçado como certos pensamentos do passado vez por outra tornam a incomodar. Não remontam fatos realmente marcantes, são lembranças de coisas bestas, como aquela vez em que a angustiante demora dele responder no MSN foi pra te dedicar uma canção ou como aquela rua cheia de lombadas, antes nunca notada, arrancava comentários quando passavam juntos por ela, ou quem sabe aquele sorvete de Laka que remete ao dia em que vocês fizeram um desastre na cozinha tentando cozinhar. E bate uma saudade diferente, aquela saudade que grita baixinho (sim, com esse paradoxo do grito sussurrado mesmo, pra ilustrar a indefinição do momento), que tem medo de se mostrar presente e escolhe os momentos mais aleatórios e inoportunos pra se manifestar.
Daí você se pega avaliando casa momento, cada pequena situação, cada olhada de canto ou alteração sutil no tom de voz que possam indicar um sinal de que ele se importa ou algum dia se importou. Passa a imaginar que a maneira como aquela vírgula foi colocada numa frase dele pode indicar um sentimento muito grande por trás, ou mesmo aquele "Bom Dia" dito de forma não-usual pode querer passar uma mensagem bem diferente de cordialidade matinal.
Diante de tantos sentimentos e lembranças contrapostos, só há mesmo que se pensar em uma saída: procurar conviver bem com o passado. Sossegar o coração, dar-se conta de que dificilmente se arranca a lembrança e que, enquanto houver a dor, por mais fina que ela seja, o latejar das feridas serve também pra lembrar do quanto podes se fortalecer no meio de tudo isso. Um dia, essas lembranças serão apenas causos contados pros amigos numa mesa de bar, arrodeados de risadas e "Cê acredita que isso aconteceu comigo? Digaí!".