quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Presente conciso, passado expansivo

É engraçado como o mundo contemporâneo desenvolveu em nós essa tendência a simplificar a maneira de expressar certas ideias. Abreviações, gírias, resumos: a corrida louca que é viver nos dias de hoje exige respostas mais rápidas, atitudes mais imediatas, concisão nas palavras. Nessa velocidade avassaladora, muita coisa se perde: pensamentos capazes de encher parágrafos e mais parágrafos ficam resumidos à trabalhosa missão de não ultrapassar 140 caracteres. Relendo meu twitter, me deparei com algo que, embora marcante na época, ficou renegado a 21 palavras. Em duas frases curtas tive o descuido de resumir um fato tão cheio de significado - algo que me acompanha desde que me entendo por gente e que definiu muito do que sou.
Então, agora atenta, tenho a necessidade de discorrer em linhas extensas sobre a maneira como o passado exerce influência no agora. De tíquetes de cinema a etiquetas de roupas, sempre tive essa síndrome de esquilo, arquivando tudo que pudesse me arrancar alguma lembrança posteriormente. Guardo até hoje uns pedacinhos de gesso de parede nos quais uma amiga me escreveu recados: a amizade pereceu, mas o registro dela fica lá, preservado. Aquela minha caixa azul com desenho de ursinhos funciona como uma espécie de portal para um tempo já ido. É a máquina do tempo mais simples do mundo, feita apenas de papelão e elástico. Olhar, vezenquando, pros pedaços de gesso, pros bilhetes de cinema, pras cartinhas, chaveiros e fotos 3x4 por muito tempo mantidos é como um teletransporte para uma realidade hoje apenas existente numa parte pequena da minha mente. Pequena porque lembranças desbotam com o tempo, afastam-se do centro da atividade cerebral, mas não perdem sua importância. Nunca. E foi exatamente essa constatação que me atingiu quando encontrei, dentro de um livro antigo da estante enorme aqui de casa, um pedaço de papel já amarelado. Poucas palavras escritas numa letra inconfundível e tantas coisas do passado guardadas entre as folhas de 'On the Road'. Páginas que fizeram aflorar sentimentos muito além dos provocados pela deliciosa leitura.
"As plantas estão sêcas.", dizia o bilhete, datado de 1981 e ainda numa gramática hoje obsoleta. Eu sequer existia nesse mundo, e consigo extrair, agora, muito significado dessas quatro palavrinhas. A surpresa de encontrar uma frase tão crua foi capaz de despertar uma infinidade de pensamentos, aguçar a imaginação e, por fim, me fazer conformar sobre uma série de acontecimentos. Pra quê tanto desgaste? As plantas simplesmente secaram. Não há muito o que se fazer, além de guardar em bilhetes e pedaços de fitas e bugigangas as memórias de um passado outrora tão importante. Secas, mas boas.

domingo, 24 de outubro de 2010

Encontros e Despedidas

Até pra dar uma amenizada nas temáticas sentimentalóides que andavam rolando por aqui, resolvi falar sobre uma coisa, ou melhor, sobre um lugar que talvez seja um dos meus favoritos: o aeroporto. Não sei explicar racionalmente o porquê desse refúgio, mas aeroportos de uma maneira geral muito me dizem. Quando sou eu quem está viajando, desperta-se a expectativa do novo, o frio na barriga na hora da decolagem que também revela o embrulho no estômago por estar buscando novas vivências. São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires e é a mesma sensação toda santa vez: o congelamento dentro do corpo, a excitação pelo que estava/está por vir.
De todo modo, o simples fato de ir ao aeroporto sem passagens compradas ou bagagem a tiracolo me dá uma inexplicável paz de espírito. Ainda que carregada da tristeza por deixar alguém querido ir embora, a situação toda, o abraço derradeiro na frente do portão de embarque é capaz de revelar muito sobre sentimentos verdadeiros. Nos poucos minutos que antecedem a última chamada para embarque imediato, devemos agir rapidamente e deixar apenas as palavras importantes chegarem a seu destino: nesse momento, diz-se somente o essencial, o "te cuida, boa viagem, sentirei saudades" que comprova a importância daquela pessoa na nossa vida e o buraco instaurado enquanto ela está ausente.
Muito mais numerosas do que os bilhetes comprados em meu nome são as lembranças que guardo de momentos assim, nos quais fica atestada a representatividade exata das pessoas que deixo, não para saírem de minha vida, mas para encontrarem outros modos de se fazerem presentes. Distância está bem longe de ser determinada por fatores geográficos, disso sei bem.
Que as despedidas tragam lágrimas, sim. E que sirvam, antes de mais nada, para nutrir a expectativa do reencontro. O buraco outrora fincado no peito é instantaneamente curado, em um preenchimento ainda mais realizador. Mal posso esperar pela próxima oportunidade de ouvir aquele "Flight number zeroeightfiveseven from..." dito no inglês mais amador e ao mesmo tempo confortante ever!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dificilmente se arranca a lembrança.

É engraçado como certos pensamentos do passado vez por outra tornam a incomodar. Não remontam fatos realmente marcantes, são lembranças de coisas bestas, como aquela vez em que a angustiante demora dele responder no MSN foi pra te dedicar uma canção ou como aquela rua cheia de lombadas, antes nunca notada, arrancava comentários quando passavam juntos por ela, ou quem sabe aquele sorvete de Laka que remete ao dia em que vocês fizeram um desastre na cozinha tentando cozinhar. E bate uma saudade diferente, aquela saudade que grita baixinho (sim, com esse paradoxo do grito sussurrado mesmo, pra ilustrar a indefinição do momento), que tem medo de se mostrar presente e escolhe os momentos mais aleatórios e inoportunos pra se manifestar.
Daí você se pega avaliando casa momento, cada pequena situação, cada olhada de canto ou alteração sutil no tom de voz que possam indicar um sinal de que ele se importa ou algum dia se importou. Passa a imaginar que a maneira como aquela vírgula foi colocada numa frase dele pode indicar um sentimento muito grande por trás, ou mesmo aquele "Bom Dia" dito de forma não-usual pode querer passar uma mensagem bem diferente de cordialidade matinal.
Diante de tantos sentimentos e lembranças contrapostos, só há mesmo que se pensar em uma saída: procurar conviver bem com o passado. Sossegar o coração, dar-se conta de que dificilmente se arranca a lembrança e que, enquanto houver a dor, por mais fina que ela seja, o latejar das feridas serve também pra lembrar do quanto podes se fortalecer no meio de tudo isso. Um dia, essas lembranças serão apenas causos contados pros amigos numa mesa de bar, arrodeados de risadas e "Cê acredita que isso aconteceu comigo? Digaí!".

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Reflitäo

Hoje, andando pela casa, terminei ouvindo de relance o seguinte diálogo entre meu irmão de dez anos e a moça que trabalha aqui:
Martim: Neide, você não acha que ia ser mais justo votar em um candidato por causa das referências dele, as coisas boas que ele fez enquanto governou, as obras, a ajuda às pessoas e seus "antepassados" (acho que ele quis dizer antecedentes, haha)?
Neide: Ah não, pra mim ele me dando um emprego eu já votava nele.
Martim: Mas você não pode pensar só em você, tem que escolher um candidato porque ele vai ser capaz de ajudar a toda a sociedade! (meu irmão é um gênio mirim, tenho dito.)
Neide: Eu tô entendendo o que você tá dizendo, mas eu não... ah, eu não sei dizer não, só sei que eu ia votar nele mermo.
Martim: Te entendo, mas continuo achando isso muito errado.

Depois de dar umas risadas diante da esperteza do meu pirralho, parei pra pensar em como esse corriqueiro diálogo escancara uma série de abismos presentes no País, situações preocupantes que revelam que ainda estamos caminhando a passos tímidos na construção de uma democracia plena. A cegueira das classes menos favorecidas diante do resquício de coronelismo que existe na política nacional contrastou com a inocência infantil de achar que basta ter "bons antepassados" e pronto, tá eleito e nunca será corrupto. É, fica cada dia mais complicado tentar esboçar uma opinião clara e convicta quando o assunto é política. O momento de eleições, campanhas eleitorais, escândalos, acusações e discussões no STF finda por deixar a maior parte da população assim, perdida no meio do tiroteio, sem saber direito se a solução é a indiferença completa e desacreditada ou a indignação gritada dos mais fundamentalistas. A mim, resta presenciar diálogos como esse e refletir sobre onde é que eu fico, em que ponto da reta que separa esses dois extremos estarei pisando no próximo domingo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Saibamos pois:

Estamos sós."



depois de um tempo, começa a fixar-se em mim a noção de que a vida não passa de um repetir de ciclos: depositar confiança nas pessoas, alimentar expectativas acerca das coisas e das relações humanas, e posteriormente quebrar a cara. Over and over again.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Speaks for itself.

Isso tá errado
Eu não sou nenhum bicho noturno
Eu quero dormir no escuro e só acordar se for claro pra mim
E se acontecer do meu corpo cansar antes da hora
Se a vida de mim for embora, tô pronto pra nova visão

Esse é o contrato que nem precisou assinar embaixo
Faz morrer um amor ainda no parto
Pra recomeçar com outro ainda maior
Pra viver de amor, tem que morrer milhões de amores fracos
Pra dar força àquele que é farto

E o tempo pára - e parece que parou...

(Mamelungos - Bicho Noturno)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Bem leve leve, releve

(foto tirada daqui)

E as coisas ficam bem mais l e v e s após a bela constatação de que de nada adianta se culpar, martirizar, flagelar: há motivos superiores para as coisas acontecerem, razões maiores de ser do que aquela pequena coisinha que você fez e achou ter desencadeado um monte de outras tantas. Vai ver tudo pode ser mais simples, sem a necessidade de ser indicado um culpado, sem precisar que os milhares de jurados em volta me apontem os dedos, cochichem entre si e ordenem como devo agir. Sabe aquele tão batido "não é você, sou eu?"? Bom, vai ver foi você mesmo, porque eu, aahhhm eu tô a fim de viver as coisas, sem preocupação, sem pressa, sem dor! :)