quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Dificilmente se arranca a lembrança.

É engraçado como certos pensamentos do passado vez por outra tornam a incomodar. Não remontam fatos realmente marcantes, são lembranças de coisas bestas, como aquela vez em que a angustiante demora dele responder no MSN foi pra te dedicar uma canção ou como aquela rua cheia de lombadas, antes nunca notada, arrancava comentários quando passavam juntos por ela, ou quem sabe aquele sorvete de Laka que remete ao dia em que vocês fizeram um desastre na cozinha tentando cozinhar. E bate uma saudade diferente, aquela saudade que grita baixinho (sim, com esse paradoxo do grito sussurrado mesmo, pra ilustrar a indefinição do momento), que tem medo de se mostrar presente e escolhe os momentos mais aleatórios e inoportunos pra se manifestar.
Daí você se pega avaliando casa momento, cada pequena situação, cada olhada de canto ou alteração sutil no tom de voz que possam indicar um sinal de que ele se importa ou algum dia se importou. Passa a imaginar que a maneira como aquela vírgula foi colocada numa frase dele pode indicar um sentimento muito grande por trás, ou mesmo aquele "Bom Dia" dito de forma não-usual pode querer passar uma mensagem bem diferente de cordialidade matinal.
Diante de tantos sentimentos e lembranças contrapostos, só há mesmo que se pensar em uma saída: procurar conviver bem com o passado. Sossegar o coração, dar-se conta de que dificilmente se arranca a lembrança e que, enquanto houver a dor, por mais fina que ela seja, o latejar das feridas serve também pra lembrar do quanto podes se fortalecer no meio de tudo isso. Um dia, essas lembranças serão apenas causos contados pros amigos numa mesa de bar, arrodeados de risadas e "Cê acredita que isso aconteceu comigo? Digaí!".

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Reflitäo

Hoje, andando pela casa, terminei ouvindo de relance o seguinte diálogo entre meu irmão de dez anos e a moça que trabalha aqui:
Martim: Neide, você não acha que ia ser mais justo votar em um candidato por causa das referências dele, as coisas boas que ele fez enquanto governou, as obras, a ajuda às pessoas e seus "antepassados" (acho que ele quis dizer antecedentes, haha)?
Neide: Ah não, pra mim ele me dando um emprego eu já votava nele.
Martim: Mas você não pode pensar só em você, tem que escolher um candidato porque ele vai ser capaz de ajudar a toda a sociedade! (meu irmão é um gênio mirim, tenho dito.)
Neide: Eu tô entendendo o que você tá dizendo, mas eu não... ah, eu não sei dizer não, só sei que eu ia votar nele mermo.
Martim: Te entendo, mas continuo achando isso muito errado.

Depois de dar umas risadas diante da esperteza do meu pirralho, parei pra pensar em como esse corriqueiro diálogo escancara uma série de abismos presentes no País, situações preocupantes que revelam que ainda estamos caminhando a passos tímidos na construção de uma democracia plena. A cegueira das classes menos favorecidas diante do resquício de coronelismo que existe na política nacional contrastou com a inocência infantil de achar que basta ter "bons antepassados" e pronto, tá eleito e nunca será corrupto. É, fica cada dia mais complicado tentar esboçar uma opinião clara e convicta quando o assunto é política. O momento de eleições, campanhas eleitorais, escândalos, acusações e discussões no STF finda por deixar a maior parte da população assim, perdida no meio do tiroteio, sem saber direito se a solução é a indiferença completa e desacreditada ou a indignação gritada dos mais fundamentalistas. A mim, resta presenciar diálogos como esse e refletir sobre onde é que eu fico, em que ponto da reta que separa esses dois extremos estarei pisando no próximo domingo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"Saibamos pois:

Estamos sós."



depois de um tempo, começa a fixar-se em mim a noção de que a vida não passa de um repetir de ciclos: depositar confiança nas pessoas, alimentar expectativas acerca das coisas e das relações humanas, e posteriormente quebrar a cara. Over and over again.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Speaks for itself.

Isso tá errado
Eu não sou nenhum bicho noturno
Eu quero dormir no escuro e só acordar se for claro pra mim
E se acontecer do meu corpo cansar antes da hora
Se a vida de mim for embora, tô pronto pra nova visão

Esse é o contrato que nem precisou assinar embaixo
Faz morrer um amor ainda no parto
Pra recomeçar com outro ainda maior
Pra viver de amor, tem que morrer milhões de amores fracos
Pra dar força àquele que é farto

E o tempo pára - e parece que parou...

(Mamelungos - Bicho Noturno)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Bem leve leve, releve

(foto tirada daqui)

E as coisas ficam bem mais l e v e s após a bela constatação de que de nada adianta se culpar, martirizar, flagelar: há motivos superiores para as coisas acontecerem, razões maiores de ser do que aquela pequena coisinha que você fez e achou ter desencadeado um monte de outras tantas. Vai ver tudo pode ser mais simples, sem a necessidade de ser indicado um culpado, sem precisar que os milhares de jurados em volta me apontem os dedos, cochichem entre si e ordenem como devo agir. Sabe aquele tão batido "não é você, sou eu?"? Bom, vai ver foi você mesmo, porque eu, aahhhm eu tô a fim de viver as coisas, sem preocupação, sem pressa, sem dor! :)

domingo, 27 de junho de 2010

Tanta gente no meu rumo, mas eu sempre vou só. Tanta gente no meu rumo, já não sei viver só...

Tenho alguns posts esperando para serem desenvolvidos nos rascunhos, mas não vem ao caso agora. Eles vão ter que esperar, porque OLHA, esse feriado trouxe tanta coisa, tantas surpresas, reviravoltas e epifanias que, depois de muita angústiachorodesabaforeflexão, resolvi contrapor aqui duas músicas (de novo, elas, as canções e a sabedoria de seus versos...) e falar dos diferentes sentimentos que cada uma desperta. Vamo lá:

Radiohead - The Bends
Não é de se estranhar que uma música de Radiohead diga muito sobre mim, mas esses versos meio ácidos fizeram muito sentido esses dias, dias de destruição de referências e da triste descoberta de que o egoísmo e a falta de sensibilidade aparecem justamente quando você menos espera: Where do we go from here? The words are coming out all weird. Where are you now when I need you? I need to wash myself again to hide all the dirt and pain 'cause I'd be scared that there's nothing underneath... And who are my real friends? Have they all got the bends? Am I really sinking this low? We don't have any real friends - No no no. É mais ou menos isso, sabe, Thom Yorke definiu muito bem o que eu preciso fazer: me lavar de tanta feladaputice e falta de consideração que existe por aí, pra ver se as coisas melhoram. Agora, mudando completamente de tom, música número dois:

Milton Nascimento - Que bom amigo
Esse áudio tá uma porcaria, mas a música vale muito a pena. Primeiro porque é Milton Nascimento, e Bituca dispensa maiores justificativas. Taí uma pessoa que tem o dom pra tornar não só as músicas, mas as coisas em geral mais bonitas. Depois de passar a madrugada ouvindo algumas dele que acenderam em mim a vibe melancólica da música radioheadiana acima, sobre estar só e sobre as dificuldades da vida, me deparo com essa boa surpresa... Porque é muito bom, depois do transtorno emocional de descobrir que certas pessoas não são lá aquilo que você imaginava, e que a vida te esmurra e tá cheia de gente prestes a te decepcionar a cada lado que você olha, constatar que vai ter alguém - mesmo que seja um único alguém, nesse momento - que te tira dessa e mostra que há esperança na humanidade. Alguém pra quem você consegue se mostrar mesmo quando a vontade é de que ninguém te veja naquele estado. Alguém pra escutar seu choro, mesmo sem dizer nada, e depois te fazer rir ainda derramando lágrimas dos olhos. Já disse antes aqui que confiança não se cobra, mas esse alguém supera essas barreiras e permite que você vença qualquer orgulho e diga "preciso de você, fica do meu lado, não me larga, por favor." Que bom, amigo, poder saber outra vez que estás comigo, dizer com certeza outra vez a palavra amigo. Se bem que isso nunca deixou de ser... Que bom, amigo, poder dizer o teu nome a toda hora, a toda gente, sentir que tu sabes que estou pro que der contigo. Se bem que isso nunca deixou de ser.. Que bom, amigo, saber que na minha porta, a qualquer hora, uma daquelas pessoas que a gente espera, que chega trazendo a vida, será você. Sem preocupação.

sábado, 19 de junho de 2010

Parafraseando

Já deve ter ficado um saco pra quem me lê (se é que existe alguém capaz de realmente me ler) esse uso desenfreado de citações e frases e versos e pensamentos que não seriam exatamente meus, mas que, na realidade, são sim muito meus, apenas não de minha autoria. O fato é que achei um arquivo do bloco de notas com uma série de textos que garimpei tempo desses em blogs e músicas perdidas; algumas, guardei porque vivia uma fase relativamente boa, embora tivesse consciência de seu prazo de validade, e no momento não se encaixavam. Outras, simplesmente salvei pela covardia de mostrar a quem queria - melhor assim.
De maneira geral, são frases que eu sabia terem alguma utilidade pra mim algum dia, mesmo como placebo. E é chato, eu sei, referir-me sempre ao mesmo assunto, aquela mesma ladainha imbecil de quem não vira o disco - mesmo sendo este um belo d'um pirata arranhado -, mas sinto ter chegado a hora de colocar pra fora, dar alguma utilidade a essas coisas guardadas - no HD do computador e na minha cabeça. As fontes são tantas e tão diferentes entre si, e mesmo assim dá pra fazer um texto corrido surpreendentemente coeso. Então, lá vai:

"Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada... Às vezes quero crer mas não consigo, é tudo uma total insensatez, aí pergunto a Deus: escute, amigo, se foi pra desfazer, por que é que fez? Não há pra quê chorar por um amor que já morreu. Deixa pra lá, eu vou, adeus; meu coração já se cansou de falsidade... E quando alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode, porque está tentando adequar/ajustar um arquétipo, uma imagem de toda a nossa infinita carência, nossa assustadora sede, a uma realidadezinha infinitamente inferior. E, de qualquer forma, às cegas, às tontas, tenho feito o que acredito, do jeito talvez torto que sei fazer. Ou talvez eu só precise de férias, um porre e um novo amor. Eu gosto de gostos, eu gosto de pele, de cheiro, de amor verdadeiro."

perdão a quem citei sem dar os devidos créditos; pelo menos coloquei aspas..
ouvindo: Santa Chuva - Marcelo Camelo - totalmente compatível com Recife por esses dias...