domingo, 8 de novembro de 2009

Exijo respeito, não sou mais um sonhador

Nós somos criados para alimentar expectativas. Desde pequenos, agimos na tentativa de conquistar a aprovação da família, dos amigos, das pessoas mais populares (e maldosas) do colégio, dos professores, de todo mundo. Mil expectativas são criadas sobre quem devemos ser, ou como deveríamos (e devemos) agir para corresponder ao que os outros pensam de nós. Mas, principalmente, aprende-se desde cedo a criar expectativas sobre os outros. E assim, são construídas necessidades, opiniões pre-fabricadas sobre o ser e o agir de quem nos cerca, essas nem sempre concretizadas. Quase nunca, na verdade. A gente quebra a cara bonitinho quando percebe que existe, de fato, apenas uma projeção deturpada e inalcançável de como gostaríamos que as pessoas fossem e agissem. Eu espero demais dos outros. Por egoísmo, talvez, ou pelo jeito meio sonhador, cultivei internamente o hábito de esperar das pessoas muito mais do que elas podem me dar. Naturalmente, existem aquelas capazes de destruir o premeditado e me surpreender positivamente. Mas, na maioria das vezes, eu fico querendo que a pessoa enxergue o meu lado, que leve em consideração meus sentimentos, que procure me compreender. Quanta expectativa inatingível, mesmo! Raramente se vê alguém altruísta o suficiente pra preocupar-se tanto assim com os sentimentos do outro, ainda mais com os meus. Aí, depois de perceber a farsa dessas especulações, a gente desiste de sonhar, torna-se exageradamente cético, descrente da humanidade. Coloco na cabeça que não vou esperar mais nada de ninguém e that's it, vocês que venham me procurar, porque cansei de tentar imaginar que existia alguma consideração por mim. Já era. Eis que aí, de repente, não mais que de repente, lá vou eu de novo como um tolo, procurar o desconsolo que cansei de conhecer*, imaginando o que a pessoa poderia fazer pra se redimir, desejando que percebam o erro e voltem atrás. Mais construção de expectativas. Mais coisa a ser posteriormente desconstruída. Mais um ciclo (quase) sem fim.

*Retrato em Branco e Preto

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Olha, Maria

O copo d'água, a madrugada, o removedor de maquiagem, os vários discos de Cateano, o acalanto da solitude, as lembranças voláteis. O dia amanhecendo. A incerteza.

"Olha, Maria
Eu bem te queria
Fazer uma presa
Da minha poesia
Mas hoje, Maria
Pra minha surpresa
Pra minha tristeza
Precisas partir

Parte, Maria
Que estás tão bonita
Que estás tão aflita
Pra me abandonar
Sinto, Maria
Que estás de visita
Teu corpo se agita
Querendo dançar

Parte, Maria
Que estás toda nua
Que a lua te chama
Que estás tão mulher
Arde, Maria
Na chama da lua
Maria cigana
Maria maré

Parte cantando
Maria fugindo
Contra a ventania
Brincando, dormindo
Num colo de serra
Num campo vazio
Num leito de rio
Nos braços do mar

Vai, alegria
Que a vida, Maria
Não passa de um dia
Não vou te prender
Corre, Maria
Que a vida não espera
É uma primavera
Não podes perder

Anda, Maria
Pois eu só teria
A minha agonia
Pra te oferecer."

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

What's the point of speech when all i do with it is just repeating myself?

Se tem uma coisa por vezes frustrante é ver como as pessoas costumam dar conselhos. Seguras de si por completo, absolutamente corretas e donas da razão, e quase sempre sobre assuntos cuja vivência desconhecem. A pessoa não tem a menor ideia de como é estar naquela situação, mas de uma hora pra outra, todos viram experts e dão logo um parecer técnico, quase um diagnóstico médico detalhado determinando o que você deve fazer, como agir. E o melhor de tudo é que essas mesmas pessoas NUNCA agem da maneira que aconselham, quer dizer... paradoxos, paradoxos. É sempre essa coisa, faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Acho que sou meio torta mesmo em algumas várias coisas, e percebi que, quando acontece de receber conselhos quase unânimes a respeito de um assunto (sim, porque sou insegura o suficiente pra buscar várias opiniões), acabo fazendo exatamente o contrário. E isso vai de coisas banais, como o jeito de usar uma roupa, a decisões que podem alterar por completo o andamento da minha vida. Como todos, também aconselho sabiamente sobre assuntos mesmo sabendo não ser o comportamento adotado por mim quando vivenciá-los. Tsc, sempre distorcidos, nós, que acreditamos saber de tudo e ter a solução milagrosa pra os entraves alheios. O perigo está bem aí, em imaginarmos ter poder absoluto sobre o que diz respeito a outrem, e esquecermos de nós mesmos. Achar melhor transferir a facilidade de resolver problemas para os não concernentes a nós mesmos. Colocar na cabeça que a grama do vizinho é mais verde, ou, no caso, mais fácil. Pura ilusão.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.

Até que ponto sua vida pode ser tão marcada e delimitada pela presença de outra pessoa? Agora, e sempre mais, me dou conta de que a máxima "é impossível ser feliz sozinho" é verdadeira, e não é por ser pateticamente dependente e carente não. É por estar construindo na cabeça a consciência de que posso, sim, delegar a outra pessoa a capacidade de tornar-me feliz. Aprendi nos últimos meses que a minha completude se forma depois de me livrar de toda e qualquer lembrança hoje vazia, do ceticismo, do veneno dos outros. E, deixando esse espaço livre de coisas negativas, surgem os pequenos gestos, o frio na barriga, as expectativas criadas (ainda que depois destruídas), a antecipação, o desespero seguido do conforto, a vontade incontrolável de estar perto, de sentir que as coisas têm um sentido... e não basta sentir, é preciso perceber uma via de mão-dupla, uma relação de companheirismo, de mútuas doações, onde o egoísmo é totalmente deixado de lado. Sei que é um risco muito grande a tomar, e já bem citei por aqui a ausência de uma armadura capaz de me segurar nessas horas. Mas escolho o oposto. Escolho me jogar de olhos fechados e esquecer qualquer rastro de razão que traga relutância. Porque é assim que as coisas dão certo, quando elas conseguem arrebatar, mudar as concepções, transformar o detestável em lindo e maravilhoso. A completude que me atinge é a de sentir que posso ficar bem sozinha, mas ainda melhor com sua presença. Tava lendo um site que fala sobre o amor e achei lindo: "Gosto do carinho e da forma atenciosa como nos encaramos. E dos silêncios que no início incomodavam e, hoje, descortinam".
São esses olhares e silêncios que me fazem entender melhor o que é o amor. Ainda que inexplicável, inevitável e inadmissível, tudo ao mesmo tempo, acho que conseguirei um dia, de fato, conhecê-lo.

sábado, 4 de julho de 2009

Cobrar felicidade de quem dá chão às estrelas

Às vezes, faz-se necessário mudar. Sair do que costuma ser o seu "eu", fazer misturas agridoces mesmo. E foi o que eu fiz. Resolvi misturar, não mais ter que me preocupar com aqueles que antes eram problemas quase insolúveis. E não é que às vezes dá certo? Sair do mesmo pode ser muito bom, mesmo que dependa de outras pessoas que nem imaginam o quanto o momento se faz importante. Momento. Um feixe de segundos capaz de mudar tudo. Destruir uma infinidade de opiniões e construir uma visão completamente nova na sua cabeça. Pra melhor. Quase um darwinismo psicológico onde quem evolui é você mesmo pra ser mais forte que você mesmo. E sobreviver a você mesmo. Ficar mais forte...por que são os mais fortes que se sobrepõem aos fracos, né? Pois então. Me sobreponho ao que antes acreditava ser, pra existir mais forte agora. E perdurar assim. :D

terça-feira, 30 de junho de 2009

Sobre tecnologia, política e vergonha na cara

Não sou muito de entrar em fervorosas discussões políticas, acho que até por um grande desencanto na credibilidade dessa vergonhosa política que é vista nos dias de hoje, mas não posso deixar de comentar toda essa coisa dos "manifestos"dos piratas no twitter, o #ForaSarney e o que pode ser o início de uma manifestação efetiva contra o status quo. Ok, é inquestionável a maravilha que está em usar os recursos tecnológicos da modernidade para propagar opiniões e argumentações políticas, e nesse sentido, li até uma frase lá no twitter que dizia "@twpirata bom trabalho, valeu a pena ver tanta gente usando as ferramentas tecnológicas para renovação política". Realmente, tá em trending topics, muita gente mostrando indignação e querendo fazer alguma coisa quanto ao calamitoso estágio da corrupção no País. Mas gente, sério, será que é isso que vai trazer a tão falada e desejada renovação política mesmo? Não consigo parar de pensar nas críticas feitas a esse movimento, que alertaram para a vontade dos tais piratas de conquistar fama e visibilidade. É uma possibilidade, né? Mesmo que não tire o brilho da causa. Mas aí a galera fala que isso é "mobilização social online". Sim, mobilização é, mas social? Pelamordedeus. Quantos brasileiros são instruídos para ter um acesso de qualidade à internet? Quanto mais ao twitter, po! Eu, que toda vida fiz uso da ferramenta virtual e só convivo com pessoas na mesma situação, todo dia tenho que explicar pra alguém do meu convívio what the fuck is twitter, quanto mais os milhares de brasileiros sofridíssimos que, por causa da robalheira de alguns poucos, permanecem esquecidos e continuam a votar nos piores por serem vítimas desse resquício de clientelismo! Outra coisa: é só o #ForaSarney digno de destaque? As pessoas precisam ter consciência de que o problema é GENERALIZADO e que as ações para revertê-lo devem ser feitas pra atingir o todo. Mas essa nossa inerente mania de sempre querer colocar a culpa em cima de alguém, esse nosso terrível mal do bode expiatório acaba impedindo-nos de enxergar, por exemplo, que o próprio senhor excelentíssimo que está comandando as investigações dos atos secretos também é envolvido em alguns desses documentos polêmicos. Mas esses em que o senhor excelentíssimo aparece foram divulgados? Ehm, não. Joga pedra na Geni que ela é boa de cuspir mas esqueça que todos são mesmo escrotos, farinha do mesmo saco. Não vou entrar em discussões ideológicas, só queria expor uma série de coisas que passam na minha cabeça, e que deveriam passar na cabeça de todo mundo antes de sair por aí gritando convicções às vezes não bem fundamentadas... Então, #ForaSarney! E fora essa esbórnia maldita que se convencionou chamar de câmara dos deputados, ou senado, ou plenário, ou prefeituras...e por aí vai.

adendo: pra complementar, leiam essa incrível entrevista com Marcelo Tas, e reflitam. :)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Pena que a rima ficou só comigo.

Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

-Paulo Leminski